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Notícias e Entrevistas


publicado em:  20 Maio 2011
Pensar o futuro a partir da avaliação de competências. Entrevista a Irwin Kirsch

Irwin Kirsch é Director do Center for Global Assessment no Educational Testing Service (ETS) e especialista em questões de literacia e avaliação de competências. Tem uma vasta experiência na direcção de estudos realizados nos Estados Unidos e a nível internacional nesta área. Neste momento é Coordenador Geral  do PIAAC (Programme for the International Assessment of Adult Competencies), um inquérito internacional de  avaliação de competências no qual Portugal participa.    


Competências e desigualdades sociais

Observatório das Desigualdades: As competências dos adultos – por exemplo, a literacia ou a numeracia – determinam a forma como as pessoas lidam com os vários tipo de desafios que se lhes colocam no quotidiano e a sua capacidade para descodificar e interpretar a linguagem escrita ou numérica. Essas competências podem ser entendidas como um factor decisivo na produção das desigualdades sociais?

Irwin Kirsch: Penso que em países como os Estados Unidos é justo dizer-se que a literacia tornou-se um capital. O que podemos observar na sociedade é que as exigências de literacia sofreram alterações ao longo do tempo e aquilo que se espera que sejam as competências de literacia ou de numeracia das pessoas tem continuado a aumentar, tal como a complexidade das sociedades. Neste momento esperamos que mais pessoas tenham maiores níveis de literacia. O que os dados nos demonstram é que as pessoas com mais competências tendem a ser as que permanecem mais tempo na escola e as que concluem níveis de ensino mais elevados. Em consequência disso têm uma melhor inserção no mercado de trabalho e, em média, melhores rendimentos.  Neste sentido observamos que existe uma relação relativamente forte entre o nível de literacia ou numeracia do indivíduo e o seu nível de rendimentos. Começamos também a verificar que existe uma associação entre a situação económica do indivíduo e o seu perfil social – se é pobre ou vive perto desse limiar, ou se participa ou não em actividades cívicas e de voluntariado. Há actualmente dados que demonstram que existe uma associação entre o nível de educação, as competências e os indicadores de saúde. Estamos, portanto, a descobrir que as competências revelam ser bastante importantes não apenas no acesso às oportunidades económicas, mas também a outro tipo oportunidades. Aqui nos Estados Unidos e noutros sítios existem fossos – elevados níveis de desigualdade entre os que beneficiaram dessas competências e os que não beneficiaram. Na verdade, esse fosso tem vindo a aumentar nos Estados Unidos e é muito difícil corrigi-lo. Acabamos por deixar segmentos da população para trás. À medida que a literacia vai assumindo uma importância cada vez maior, as consequências de não possuir as competências exigidas tornam-se maiores e a desigualdade torna-se mais prevalecente.

OD: O nível de escolaridade é um bom preditor do rendimento. Mas em Portugal, tal como em muitos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), existem grandes diferenças económicas entre pessoas que concluíram o mesmo nível de ensino – nomeadamente entre as que concluíram o ensino superior. Pensa que as diferenças de rendimento podem ser parcialmente explicadas pela distribuição das competências?

IK: Penso que o que se passa é que para qualquer nível de educação num país – por exemplo, nos Estados Unidos ou em Portugal –, se olhar para as pessoas que completaram o 9º ano, o 12º ano ou até a universidade vai observar que em cada nível de escolaridade existe uma ampla variação da distribuição das competências. O que os dados parecem sugerir é que, mesmo num nível específico de educação, aqueles que em média têm melhores competências saem-se melhor do que os que têm níveis de competência inferiores no que diz respeito à participação na força de trabalho e no que toca ao tipo de trabalhos a que conseguem aceder – e, portanto, aos salários que conseguem ter. Isto varia consoante o país, mas em países como os Estados Unidos é um factor significativo. Neste sentido, o que é importante é não só o número de anos que se passa na escola mas também os conhecimento e as competências que se adquirem.

OD: Até que ponto as competências das pessoas dependem da sua origem social? Pode identificar os países da OCDE nos quais existe uma maior reprodução social das competências dos adultos?

IK: Penso que a origem social faz a diferença. Os pais têm um impacto significativo ao nível do património genético que passam para os seus filhos e no que toca ao ambiente social que lhes proporcionam. Algumas das características familiares são importantes porque se correlacionam com alguns indicadores que são entendidos como sendo importantes. Contudo temos de ser muito cuidadosos na forma como interpretamos estas descobertas. Por exemplo, nos Estados Unidos as minorias étnicas tendem a estar desproporcionalmente representadas nos níveis de educação e de competências baixos. Este é o “fosso de resultados”, o qual é tipicamente definido em termos de variáveis de raça e etnicidade. Mas o que está de facto por detrás desse fosso é a pobreza e outras características. Não é a raça e a etnicidade que causam a desigualdade: é o facto de um número desproporcionado de crianças pertencentes às minorias étnicas serem provenientes de famílias pobres. Penso que é importante distinguir entre as variáveis que são apenas co-variáveis daquelas que contribuem de facto, de um ponto de vista causal, para a explicação de uma determinada variação estatística. Por exemplo, observamos que nos dados do PISA (Programme for International Study Assessment) as origens familiares têm um impacto significativo na proficiência em leitura. Contudo, no PISA 2000 descobrimos que em média os adolescentes com proveniências socioeconómicas baixas mas altamente empenhados em práticas de leitura pontuavam em média melhor do que os adolescentes pouco empenhados em práticas de leitura provenientes de famílias com um nível socioeconómico elevado. Encontram-se de facto dados que sugerem que os condicionalismos familiares podem ser ultrapassados, mas tal é difícil e implica que se verifiquem certo tipo de condições.

OD: Mas esse tipo de empenhamento não está bastante relacionado com o tipo de origem familiar?

IK: Sim, mas descobrem-se casos, tal como eu estava a dizer, de pais com um perfil socioeconómico baixo cujos filhos são leitores altamente empenhados. Se pensarmos em empenhamento em termos de motivação, de comportamentos e valores, então faz sentido que as crianças que estão altamente empenhadas possam ultrapassar alguns condicionalismos sociais. Penso que é importante começar por compreender a relação entre essas variáveis e os resultados obtidos, para depois descobrir “como é que vou intervir? Como posso fazer uma intervenção na qual seja possível introduzir mudanças a este nível?”

OD: Tal como foi referido na conferência ("International Large-Scale Assessment Conference: the Role of Large-Scale Assessments in Educational Policy"),  é importante debater as políticas escolares…
 
IK: Certo, mas há também valores domésticos e práticas domésticas que também fazem a diferença. Enquanto tendemos sempre a focar-nos nas escolas, temos de nos lembrar que as crianças passam mais tempo fora da escola, e eu penso que no mundo actual, à medida que as sociedades se tornam mais complexas, os indivíduos vão ter de ser mais responsáveis pelas suas próprias vidas e pela sua própria “educação”. É necessário reconhecer que uma grande parte da aprendizagem ocorre fora da escola, e para tal poder acontecer as pessoas precisam de desenvolver as competências, as práticas e os valores imprescindíveis à aprendizagem ao longo da vida. As escolas não serão a única fonte de aprendizagem, por causa da tecnologia, da Internet…

OI: E as competências que se adquirem ou desenvolvem no mercado de trabalho são também muito importantes…

IK: Sem dúvida. O que verificamos aqui e em países como o Canadá, o Reino Unido e outros é que aqueles que têm melhores competências tendem a ficar mais tempo na escola. E aqueles que ficam mais tempo na escola alcançam qualificações escolares superiores e acedem a empregos para o desempenho dos quais essas competências são necessárias. Neste sentido, eles continuam a desenvolver no trabalho os seus conhecimentos e competências. Os dados demonstram igualmente que estes mesmos indivíduos têm também acesso a programas de formação providenciados pelos seus empregadores. Isto resulta num ciclo pelo qual aqueles que adquiriram competências têm mais oportunidades para as usar, não só para reforçarem aquilo que já sabem e podem fazer, mas também para desenvolverem novos conhecimentos e competências. Este processo contínuo também ajuda à medida que se vai envelhecendo. O envelhecimento cognitivo é um facto inevitável da vida, mas os dados parecem sugerir que aqueles mais activos na aquisição ou uso de competências – aqueles que trabalham, por exemplo – tendem a perder mais lentamente as suas capacidades cognitivas. O tempo que demoram a perder as suas competências é muito maior. Comparando as competências com a actividade física, concluiu-se que as pessoas que fazem mais exercício físico e são mais activas fisicamente tendem a manter os músculos tonificados e a forma física mais tempo. Muito embora o seu corpo esteja a envelhecer, o exercício que fazem ajuda-as a manter a forma. Deste modo, se pensarmos nas competências cognitivas utilizando a lógica da prática ou do exercício físico, esta ideia faz todo o sentido.

OI: Analiticamente podem ser identificados vários tipos de competências: a numeracia, a literacia, a resolução de problemas... As competências do indivíduo tendem a ter uma natureza sistémica, baseada numa média multidimensional de competências, ou estas variam em função da dimensão cognitiva em causa?

IK: Bem, eu penso que existem competências gerais transversais a vários domínios, mas penso também que existem competências específicas que devem ser aprendidas. Na minha opinião é importante perceber tanto as tendências gerais como as específicas. Por exemplo, quando observamos a literacia de leitura, podemos analisá-la ao longo de uma única escala ou enquanto conjunto de subescalas. No PISA a literacia de leitura é analisada muitas vezes de acordo com uma única escala porque as subescalas apresentam correlações bastante elevadas (por exemplo, quem tem um resultado elevado na leitura de um jornal é expectável que obtenha um resultado semelhante na leitura de um folheto informativo – nota do Observatório das Desigualdades). Para certo tipo de objectivos analíticos isto serve. Contudo, quando se olha para os subgrupos de uma população e se comparam rapazes e raparigas ou homens e mulheres, ou quando se comparam subgrupos dentro de um determinado país por, digamos, raça e etnicidade – nesse caso encontram-se diferenças significativas. Se fores um economista – tal como ouvimos na conferência – a informação agregada serve porque os resultados apurados para cada pessoa nas várias subescalas são bastante semelhantes. Mas se o interesse se colocar no plano educativo ou das propostas políticas pode-se analisar os subgrupos nas várias subescalas; nesse caso encontram-se diferenças muito interessantes e essas diferenças têm implicações no desenvolvimento das estratégias de intervenção. Posso dar um exemplo: se ensinares a leitura ou a literacia apenas como discurso encadeado ignoras o facto de que muita da informação que processamos como adultos não está presente em parágrafos ou em prosa. Está em quadros, gráficos, documentos. Na minha perspectiva não se pode assumir que alguém que saiba ler prosa também sabe ler documentos. Há coisas específicas na estrutura dos documentos que precisam de ser ensinadas. Esses elementos não só te ajudam de um ponto de vista quantitativo, ao nível da matemática, mas também no plano do processamento da informação, porque nos documentos a informação está organizada de forma diferente em relação à prosa. Estes diferentes princípios organizacionais podem e devem ser ensinados usando diferentes estratégias. Com a emergência da tecnologia a mesma coisa pode ser dita acerca do texto digital ou da leitura electrónica. Alguns poderão retorquir, “é apenas leitura, não é necessário ensinar às pessoas a ler texto digital porque elas sabem ler texto impresso. É o mesmo tipo de competências.” Há outras pessoas, nas quais me incluo, que dizem “bem, há de facto alguns tipos de competências que são transferíveis entre esses dois formatos – o impresso e o digital –, mas existem algumas coisas que são diferentes no ambiente digital que são importantes. Enquanto algumas crianças e adultos poderão não ter problemas com estas questões, é mais efectivo e eficiente se compreendermos e ensinarmos às pessoas essas diferenças.”

Os desafios do capital humano

OD: Até que ponto considera que os políticos e os decisores políticos estão conscientes da importância estratégica do capital humano? O Presidente dos Estados Unidos Barack Obama, por exemplo, sublinhou-a há pouco tempo. Mas não será que o centro do discurso político sobre as estratégias de desenvolvimento económico se tende a basear noutros aspectos, tais como a política fiscal, a lei laboral ou a política financeira?

IK: Na minha opinião as pessoas como o Presidente Barack Obama e outros reconheceram que a educação deixou de ser uma opção, é uma exigência, uma responsabilidade, mas esse reconhecimento está a ocorrer num momento em que os países enfrentam problemas orçamentais severos. Por isso realizar novos investimentos na educação é complicado. As pessoas sabem que é mau se não o fizerem, mas há também o problema de encontrar o dinheiro necessário e também de mentalizar toda as pessoas que elas têm de investir em si próprias. Neste sentido não é apenas o governo a ter de fazer o investimento. As pessoas têm de reconhecer que é necessário desenvolverem por sua conta o seu capital humano. Elas têm de estar disponíveis para fazer o investimento.

OD: Mas o governo tem um papel decisivo no encorajamento das pessoas para que estas invistam em si próprias…

IK: Concordo e penso que em países como os Estados Unidos os governos deveriam criar incentivos para os indivíduos prosseguirem esse desígnio. Penso que vamos perceber que isso é bom para os indivíduos e para as sociedades. É importante que os níveis de desigualdade que existem em muitos países, incluindo os Estados Unidos, sejam reduzidos. Portanto, penso que no futuro vamos aperceber-nos de que as sociedades mais saudáveis – e não falo apenas a nível físico – caracterizar-se-ão por ter níveis de desigualdade mais baixos e níveis de competências mais elevados.

OD: Alguns autores discorreram sobre o “choque” entre sociedades, seja ele cultural, político ou ideológico. Acredita que, num mundo globalizado, os países da OCDE vão enfrentar um “choque de literacia” com países como a China ou a Índia?

IK: Há um editor de jornal aqui nos Estados Unidos chamado Thomas Friedman que trabalha no New York Times. Ele defende a perspectiva, bastante válida na minha opinião, de que no passado as nações eram o elemento mais importante, enquanto as empresas cingiam-se às fronteiras nacionais. Contudo, num mundo global, as fronteiras nacionais como que se dissolveram e as empresas assumiram uma importância maior. As maiores empresas estão espalhadas pelo mundo. Ele argumenta que as fronteiras nacionais deram lugar a fronteiras empresariais e que neste momento estas estão a ser substituídas pelos indivíduos. Neste sentido, são os indivíduos que competem entre si. Nas economias baseadas no conhecimento serão os indivíduos e as empresas que irão competir pelas ideias e pelo talento. O seu ponto de vista é o de que precisamos de educar mais pessoas e educá-las melhor. As sociedades necessitam de ter pessoas no topo para impulsionar a inovação, mas também precisam que as pessoas tenham formação ao longo da sua vida porque a tecnologia e a informação mudam rapidamente, e além disso essas pessoas necessitam de ter a capacidade para trabalhar no estrangeiro. As pessoas e as empresas que o conseguirem fazer serão as que  mais vão beneficiar.

OD: E os países que melhor receberem e atraírem essas empresas e trabalhadores qualificados vão ser também os mais beneficiados…

IK: Sem dúvida. E para além disso é necessário olhar para a estrutura da força de trabalho dos países. Que tipos de empregos existem e que tipos de salários estão associados a esses empregos? Isto conduz-nos novamente à questão das desigualdades. Se uma determinada sociedade se basear essencialmente em empregos na área dos serviços pouco qualificados, na qual os salários estão deprimidos e existem relativamente poucos empregos de topo, então vão existir, por defeito, elevados níveis de desigualdade. A questão é como se pode produzir uma força de trabalho qualificada que crie empregos geradores de salários razoáveis para que deste modo exista menos desigualdade? Penso que uma das grandes questões que se vai colocar nos próximos anos será a do papel do governo. Qual a porção da prosperidade do país que vai ser partilhada e como vão ser distribuídos o rendimento e as oportunidades? Isso fará a diferença ao nível da qualidade de vida e do bem-estar existentes numa dada sociedade, mas também dos tipos de instituições que será necessário desenvolver para suportar esse tipo de sociedade. Penso que este vai ser um debate bastante interessante. Países como os Estados Unidos estão neste momento a confrontar-se com estes assuntos.

Importância da interpretação e utilização adequada da informação

OD: A informação recolhida nestes inquéritos internacionais de avaliação de competências de larga escala pode ser usada, pelo menos parcialmente, para avaliar os sistemas nacionais de educação?

IK: Penso que essas bases de dados são úteis para algumas finalidades. Para outras têm menos utilidade. Ao longo do tempo penso que estas avaliações têm dado resposta àquilo que os decisores políticos e os investigadores querem saber. Olho para bases de dados como o IALS (International Adult Literacy Survey) e o PIAAC (Programme for the International Assessment of Adult Competencies) como sendo particularmente úteis não só porque permitem observar um produto recente dos sistemas escolares e aquilo que estes conseguem fazer, mas também porque contêm aquilo a que eu chamaria “estudos de validade simultânea.” Esses inquéritos contêm questões de enquadramento que agregam informação acerca da imigração, educação, experiência no mercado laboral, aprendizagem ao longo da vida, saúde e muito mais. Estes dados juntamente com a avaliação de competências proporcionam um volume enorme de informação acerca da forma como o capital humano é distribuído no interior dos países e entre os países, mas também como é que essas competências se relacionam com factores importantes tais como a educação, a participação na força de trabalho e o envolvimento em actividade cívicas. Os decisores políticos podem perguntar, qual é a relação existente entre um determinado nível de competências e o nível de escolaridade? Como é que o nível de competências se relaciona com o acesso à força de trabalho? Como é que isso se relaciona com o aumento das competências ao longo do tempo? Qual é o papel das tecnologias na vida quotidiana das pessoas? As pessoas que não têm acesso às tecnologias ou não são literadas na área das tecnologias encontram-se numa situação de desvantagem económica e social? É, portanto, possível fazer tipos de perguntas mais ricas acerca da sociedade e de um conjunto de indicadores. Ouviste o Eric A. Hanushek (ver PDF, ver vídeo) referir que há 10, 15, 20 anos atrás os economistas não dispunham de dados relativos às competências. Dispunham apenas de informação relativa aos anos de escolaridade, e quando se cruza este indicador com o PIB (Produto Interno Bruto) não se detecta uma forte relação entre as variáveis. Agora que dispõem de dados acerca das competências, verificam que estas têm uma relação bastante forte com o desenvolvimento económico ou com o crescimento do PIB. Outros investigadores estão neste momento a demonstrar que as competências não se relacionam apenas com o crescimento do PIB, mas também com o bem-estar e com as instituições democráticas. À medida que mais pessoas têm acesso a este tipo de dados, e uma porção maior dessa informação vai ficando disponível, penso que mais e mais questões vão ser levantadas, mais e mais questões vão encontrar resposta, e os decisores políticos terão mais informação para tomar decisões e fazer investimentos.

OD: Mas até que ponto estas avaliações de competências permitem analisar a fiabilidade dos sistemas nacionais de educação?

IK: Penso que a informação que estes inquéritos proporcionam melhora ao longo do tempo à medida que aumenta o número de académicos de diferentes áreas interessados nestes estudos e, paralelamente aos decisores políticos, pedem que estes estudos respondam a mais questões. Penso que nenhum inquérito pode ser desenhado para responder a todas as questões. É importante que as pessoas não interpretem abusivamente os dados e que os usem de forma apropriada – isto é, que as inferências que fazem sejam apropriadas face aos dados recolhidos. Se assim for estes inquéritos vão continuar a ser bastante úteis e bastante informativos. Há portanto esta permuta: há as pessoas que produzem os dados, há as pessoas que vão criticar os usos dos dados, e há as pessoas que vão interpretar este diálogo para tomar decisões. É como um ciclo, e na minha perspectiva é desejável que cada ciclo seja melhor do que o anterior. Quer-se que os dados sejam mais bem usados, quer-se que os dados tenham melhor qualidade, e quer-se que as pessoas que trabalham esses dados garantam que estes são usados de forma apropriada.

PIAAC: a nova geração de inquéritos de avaliação de competências

OD: O nível de escolaridade era, até há 20-30 anos atrás, a melhor forma de medir as competências das pessoas. Hoje em dia existem instrumentos muito mais precisos para o fazer. Importa-se de explicar em traços gerais quais os tipos de competências que vão ser avaliados no PIAAC e até que ponto este inquérito representa uma superação de inquéritos anteriores, tais como o IALS?

IK: Penso que o PIAAC representa a próxima geração de inquéritos de avaliação de competências. Na minha opinião o IALS e o ALL (Adult Literacy and Lifeskills survey) foram inovadores e contribuíram bastante para que os economistas e outras pessoas compreendessem a mais-valia da análise de competências comparativamente à credenciação educativa ou aos anos de escolaridade. Mas estes inquéritos deixaram algumas questões por responder. Por exemplo, não chegámos de facto a medir as competências de pessoas que se encontram no patamar mais baixo da distribuição e a extensão da medição das competências no topo não foi muito elevada. No PIAAC queremos fazer um conjunto de coisas: queremos perceber os dois extremos da distribuição de competências um pouco melhor e reconhecemos também que na vida adulta muito dificilmente não se acede ou usa tecnologia. Por isso queremos medir até que ponto as pessoas sabem usar ambientes tecnológicos, tais como a Internet ou o correio electrónico, para resolver problemas quotidianos com os quais se poderão deparar.

Os domínios de competências analisadas no PIAAC são a literacia e a numeracia, e isto é bastante semelhante ao que foi medido no passado. A única diferença é que a maior parte dos inquiridos no PIAAC vai usar computador, e porque vamos usar o computador podemos alargar os componentes da literacia através da inclusão de tarefas de leitura electrónicas. Na numeracia podemos fazer coisas que não podíamos fazer com um papel e uma caneta, e podemos analisar a informação para além da classificação “certo” e “errado”, o que ajuda a melhorar a avaliação. Mas, além disso, vamos também incluir aquilo a que podemos denominar de “componentes de leitura”, isto é, a medição do vocabulário, da fluência frásica e da compreensão de parágrafos. Isto irá dizer-nos se as pessoas com baixos níveis de competências têm ou não lacunas de “competências mecânicas” básicas, necessárias para que possam ler ou usar a impressora de forma efectiva e eficaz. Vamos também poder dizer quantas pessoas usam e têm acesso às tecnologias e como as suas competências tecnológicas se distribuem ao nível da resolução de problemas.

Eis o que penso que os dados nos vão mostrar: há em cada país segmentos da população para os quais a avaliação dos componentes de leitura não será muito boa, e para essas pessoas as competências de literacia não serão também muito positivas. Vamos descobrir que os componentes de leitura são necessários para desenvolver boas competências de literacia e numeracia, mas não são suficientes. Além disso, penso que vamos descobrir que há pessoas que dominaram esses componentes mas que mesmo assim tiveram dificuldades com a literacia de leitura e as competências de numeracia. Estes indivíduos poderiam beneficiar de educação ou formação adicional que os ajudasse a melhorar essas competências básicas. Isto vai ser importante porque a menos que os indivíduos tenham pelo menos um nível satisfatório de competências de literacia e numeracia, não são capazes de lidar com testes de resolução de problemas, porque estes são em média mais complicados. Neste sentido, os decisores políticos irão concluir que as competências de literacia e numeracia condicionam estas competências de resolução de problemas mais complexas. Se os indivíduos não tiverem bons níveis de literacia e numeracia, será quase impossível conseguirem ter boas competências no plano da resolução de problemas. E se não se possuir boas competências ao nível dos componentes de leitura, não será possível ter boas competências de literacia e numeracia.

O PIAAC vai permitir identificar, por um lado, a estrutura da distribuição do capital humano num determinado país. Iremos depois medir se de facto este tipo de relações que atrás mencionei existe ou não em cada país. Além disso iremos também analisar como é que estas questões se relacionam com um conjunto de outros indicadores e quais as semelhanças e diferenças que existem entre os países no que a estas relações diz respeito. Iremos, portanto, ter uma percepção mais apurada não só da distribuição do capital humano, mas também como é que essa distribuição se relaciona com outros indicadores. Penso que o PIAAC vai ser uma fonte de informação muito rica para os países que nele participam em termos dos tipos de questões que eles podem colocar e, pelo menos, começar a enfrentar do ponto de vista das políticas públicas.

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