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Desigualdades de projecção do futuro laboral entre jovens com inserções profissionais pouco qualificadas
Frederico Cantante, Renato Miguel do Carmo, Nuno de Almeida Alves e Inês Baptista

Modos de projecção do futuro profissional tendem a variar de acordo com o perfil socioprofissional dos jovens. 

A análise que aqui apresentamos resulta de um projecto de investigação denominado “Estudo exploratório qualitativo sobre os jovens trabalhadores inseridos em postos de trabalho pouco qualificados”, realizado no âmbito do Observatório das Desigualdades. Esta investigação resultou na publicação do livro Jovens em Transições Precárias. Trabalho, Quotidiano e Futuro.  O estudo envolveu a realização de 80 entrevistas semidirectivas em quatro concelhos do país, procurando conhecer de forma aprofundada a integração da coorte populacional entre os 18 e os 34 anos em postos de trabalho pouco qualificados e de baixa remuneração. Neste texto será apresentada uma das dimensões analíticas exploradas na investigação: as projecções laborais dos entrevistados.

Tipos de projecções

O conceito de projecção laboral é aqui definido enquanto estratégia, atitude ou representação relativa ao porvir do trajecto laboral. Alógica de categorização dessas projecções baseou-se na análise da relação que nele se desvenda entre o passado e o futuro das trajectórias laborais, entre os recursos detidos ou a adquirir e o futuro delineado. De facto, o principal critério para a categorização do futuro laboral consistiu na análise da orientação perante o porvir, das representações e estratégias que lhe estão subjacentes. Essa categorização não se baseou na admissibilidade sociológica da concretização das projecções delineadas, no seu grau de “realismo”, mas sim na interpretação do futuro laboral enquanto dimensão subjectiva representada e prevista de forma mais ou menos consistente pelos entrevistados.

A análise dos discursos dos entrevistados acerca do seu futuro laboral permitiu definir dois modos essenciais de projecção desse mesmo horizonte temporal: as “projecções cumulativas” e as “projecções não cumulativas”. As primeiras fundamentam-se essencialmente na aquisição de recursos estruturantes para a definição da trajectória laboral, mas também na mobilização de recursos já adquiridos. Em ambos os casos, o trajecto laboral projectado emerge e depende da mobilização de um conjunto de recursos escolares, sociais ou laborais (a experiência profissional). O futuro laboral é, portanto, um horizonte que se desvenda de forma mediata, define-se em função de recursos que o viabilizam. Neste sentido, as projecções cumulativas tendem a ser estrategicamente orientadas, pensadas a partir de uma condição estruturante que possibilite a sua concretização.

As projecções não cumulativas, por seu lado, têm como característica unificadora o facto de serem erigidas independentemente de qualquer mobilização de recursos. Dentro desta categoria prospectiva, as lógicas de entendimento do porvir laboral são mais heterogéneas comparativamente às que integram as projecções cumulativas. Esta heterogeneidade decorre do facto de esta categoria analítica incluir ao mesmo tempo: lógicas não cumulativas de projecção do futuro laboral que negam a admissibilidade desse tipo de exercício prospectivo, ou que consistem numa mera abstenção prospectiva; lógicas não cumulativas de projecção do futuro laboral orientadas para a imobilidade laboral; e lógicas não cumulativas de projecção do futuro laboral orientadas para a mobilidade no mercado de trabalho. Integram esta categoria, portanto, as projecções laborais “contingentes”, as projecções laborais orientadas para a “imobilidade” e as projecções laborais que se definem pela sua “descontinuidade” face ao trajecto profissional anterior ou aos recursos escolares detidos.

Dos 79 entrevistados que se pronunciaram sobre o seu futuro laboral, 36 (46%) formularam projecções do tipo cumulativo, enquanto 43 (54%) se incluíram na categoria das projecções não cumulativas. Dentro destas, 18 são projecções contingentes, representando 42% dos casos da categoria “projecções não cumulativas” e 23% do total; 18 são também as projecções orientadas para imobilidade; e sete são projecções laborais descontínuas (16% e 9%, respectivamente).

A maior parte dos entrevistados formulam, portanto, uma projecção não cumulativa do seu futuro profissional, ou seja, concebem o porvir laboral independentemente de qualquer mobilização ou aquisição de recursos. No caso dos que introduzem uma lógica de descontinuidade nessa prospecção, o futuro laboral projectado implica uma mudança drástica face à posição e situação laboral actual. Essa mudança, que pode consistir numa alteração da actividade laboral ou na procura de mercados de trabalho que não o português, é vista como condição indispensável para a melhoria das condições de vida. Invocam-se gostos e estratégias pessoais para delimitar o novo horizonte laboral. Invoca-se também a crença de que “lá fora”, no estrangeiro, novas oportunidades e condições laborais poderão surgir. Esta lógica prospectiva é motivada pela assunção do bloqueamento da trajectória profissional actual. Acredita-se no desbloqueamento e mudança desse percurso. O porvir projectado, esse, fundamenta-se numa quase ruptura com o passado profissional. O novo começo, que não depende nem da acumulação nem da aquisição de recursos, surge em muitos casos comoumacto de desespero, uma possibilidade volátil que viabiliza a aspiração a um futuro profissional e material mais risonho.

As projecções laborais não cumulativas baseadas numa lógica de imobilidade e contingência distinguem-se daquelas, pois não são orientadas para a mudança. No primeiro caso, porque há uma continuidade entre o presente e o futuro laboral. Apesar das baixas remunerações e da precariedade que caracteriza as relações contratuais de muitos dos entrevistados, alguns deles mostram-se conformados com a sua situação. Ou então entendem que a possibilidade de mudança é constrangida por alguns factores. A conformidade decorre da incapacidade que sentem para alterar a sua situação, da sua indisposição para investir em estratégias que potenciem a mudança ou na descrença nessas mesmas estratégias. O constrangimento emerge essencialmente de um conjunto de responsabilidades familiares que tendem a produzir um sentimento de aversão ao risco. Relativamente às projecções laborais não cumulativas assentes na contingência prospectiva, a admissibilidade do exercício prospectivo é recusada, dada a exterioridade das forças que estruturam o mercado de trabalho, ou simplesmente devido à incapacidade que alguns entrevistados disseram sentir para ensaiarem esse tipo de exercício.

Projecções laborais e situação profissional e educativa

A nomeação, definição e exposição da distribuição numérica das projecções laborais permite uma primeira aproximação analítica às estratégias, atitudes e representações dos entrevistados face ao futuro das suas trajectórias profissionais. As categorias definidas e o seu peso numérico afiguram-se como um primeiro patamar analítico que permite delimitar tendências substantivas (os tipos de projecções) e quantitativas (a sua distribuição entre as categorias). Estes são no entanto enunciados analíticos gerais, descontextualizados dos factores que os produzem e tendem a parametrizar a sua distribuição. Se as categorias definidas permitem arrumar tipologicamente as representações, atitudes e estratégias face ao futuro laboral, agrupar modos semelhantes de prospecção desse horizonte, interessa analisar até que ponto o perfil profissional e educativo do indivíduo influencia esse exercício prospectivo.

Neste sentido, entendeu-se ser proveitoso agregar estes dois indicadores fortes de estruturação das relações sociais numa nova variável que contribuísse para uma caracterização dos perfis escolares e profissionais dos indivíduos, antecipando-se também que tais perfis transmitissem efeitos fortes e duradouros não só nos actuais modos e padrões de vida dos indivíduos como, também, no perspectivar da respectiva situação presente e futura. Do cruzamento entre o nível mais elevado de escolaridade frequentado e o grande grupo de integração profissional resulta a identificação de quatro grupos fundamentais de enquadramento profissional e educativo. À segmentação inicial, entre empregados executantes e operários, sobrepõe-se uma outra, de partição dos primeiros consoante o nível mais elevado de escolaridade frequentado (conclusão de pelo menos um ano escolar do nível de ensino em causa). O primeiro grupo, de executantes de escolaridade superior (EES), agrega todos os empregados executantes que passaram pelo ensino superior, dos diplomados aos que o frequentam ou frequentaram. Estes últimos, na maior parte dos casos, resultam de casos de abandono (presumivelmente temporário) dos cursos já perto do seu término, cuja retoma a breve trecho é usualmente afirmada pelos entrevistados. O segundo grupo, de executantes de escolaridade intermédia (EEI), é constituído pelos empregados executantes cuja qualificação escolar engloba o ensino secundário concluído ou frequentado. O terceiro segmento de executantes (de escolaridade elementar — EEE) abrange todos os indivíduos cuja formação escolar não ultrapassa o ensino básico. O quarto grupo caracteriza-se por uma maior influência da variável profissão na respectiva delimitação, pela atribuição da condição de operário independentemente do grau mais elevado de ensino frequentado.

O Quadro 1 permite verificar que a forma como os entrevistados equacionam o futuro laboral tende a variar de acordo com o seu perfil. Enquanto a maior parte (64,3%) dos que pertencem ao grupo dos executantes qualificados formulam projecções laborais cumulativas, apenas 28,6% (8) dos operários aderem a este tipo de projecção. De facto, entre os 28 operários analisados, 20 representam o seu futuro laboral de acordo com uma lógica não cumulativa, isto é, independentemente de qualquer mobilização ou aquisição de recursos. Entre os executantes intermédios e os executantes de baixa qualificação, o peso relativo das duas lógicas de projecção do futuro laboral é bastante equilibrado: no grupo dos executantes intermédios, 14 formulam projecções laborais cumulativas e 12 projecções laborais não cumulativas; entre os executantes de baixa qualificação, essa distribuição é de cinco e seis, respectivamente. Nestes dois grupos de enquadramento profissional e educativo não há, portanto, uma primazia pronunciada de um tipo de lógica prospectiva, mas sim uma equivalência entre os dois tipos de projecções laborais em causa.



O Quadro 2 apresenta informação detalhada relativa às projecções laborais não cumulativas. Tal como foi mencionado, entre as projecções laborais não cumulativas destacam-se do ponto de vista numérico as que equacionam o futuro laboral de acordo com uma lógica de contingência ou de imobilidade, sendo essa tendência transversal a todos os grupos de enquadramento profissional e educativo. Os dados apurados demonstram não existir uma relação evidente entre a lógica prospectiva que orienta as projecções não cumulativas e os grupos. De qualquer forma, pode-se evidenciar a importância relativa das projecções não cumulativas orientadas para a imobilidade entre os executantes intermédios e o facto de as projecções descontínuas se concentrarem fundamentalmente no grupo dos operários.

É, portanto, entre os operários que a incidência das projecções não cumulativas se revela mais elevada. Relativamente poucos entendem que o seu futuro laboral será definido em função da aquisição ou mobilização de recursos. Tal deverá estar associado ao facto de este grupo apresentar baixos níveis de escolaridade, de o capital formativo ser ainda pouco valorizado nesse conjunto de actividades e de as possibilidades de progressão nas empresas onde estes entrevistados trabalham serem relativamente baixas. De qualquer forma, a projecção não cumulativa do futuro profissional é expressiva em todos os grupos, principalmente o entendimento de que o porvir profissional não é uma realidade passível de ser prevista dada a exterioridade das dinâmicas que estruturam o mercado de trabalho, e a orientação para a imobilidade.

 

O grupo dos executantes qualificados é o único em que se verifica uma relativa predominância das projecções cumulativas. Parece aliás existir uma relação significativa entre o capital escolar detido e a mobilização ou aquisição de recursos escolares, laborais ou sociais para a definição do futuro profissional. Quanto mais escolarizados são os entrevistados, nomeadamente aqueles que trabalham nos serviços, mais parecem fazer depender o seu futuro profissional dos recursos que detêm ou vão deter. No entanto, este modo de olhar o futuro profissional e as estratégias que lhe estão associadas são também observáveis junto dos entrevistados com níveis de escolaridade mais baixos. Nestes casos, a aquisição de recursos escolares e formativos é entendida como a principal condição de possibilidade de uma mudança da situação remuneratória, contratual ou funcional experienciada no mercado de trabalho.

Ter ou não ter um futuro: eis a questão

O futuro laboral é um universo em que se cruzam expectativas, investimentos e estratégias dos indivíduos. Enquanto representação social, o futuro laboral constrói-se a partir destas orientações e disposições subjectivas. Tal como foi descrito, as projecções dos entrevistados tendem a dividir-se entre os que encontram no capital escolar e formativo o elemento decisivo para a estruturação do futuro laboral e as projecções que se definem a partir de um conjunto de lógicas não cumulativas. No primeiro caso, o futuro laboral é entendido como um ponto de chegada dependente da acumulação de recursos que o viabilizem; no segundo, emerge como um cenário indisponível ao olhar prospectivo ou enquanto realidade que se desvenda independentemente de qualquer tipo de lógica cumulativa.

A grande maioria dos jovens entrevistados consegue projectar o seu futuro laboral. Nalguns casos essa antevisão prevê uma mobilidade mais ou menos ampla no mercado de trabalho, associada a formas de acumulação de recursos ou a trajectos laborais descontínuos; noutros, o porvir laboral e as expectativas que em relação a ele são construídas decorrem de numa orientação para a imobilidade. De qualquer forma, existe nestes casos um exercício de vislumbramento – por vezes ténue – do futuro profissional. Este porvir é uma realidade passível de ser representada, projectada, antevista. Projectar o futuro não significa porém controlar ou colonizar essa realidade. Em grande medida as estratégias accionadas pelos entrevistados para entrever a sua posição futura no mercado de trabalho visam mitigar os condicionalismos, as incertezas, a precariedade que marcam os seus percursos profissionais. Mais do que indicadores de controlo sobre o futuro profissional, medidas de previsibilidade do porvir, estas lógicas de projecção do futuro são estratégias e/ou expectativas que visam limitar, superar a imprevisibilidade e a precariedade da situação laboral actual e futura. Busca-se mais segurança contratual, melhores remunerações e/ou o acesso a profissões diferentes do ponto de vista funcional e simbólico relativamente às exercidas actualmente. Mas o grau de controlo sobre esse ponto de chegada não pode ser confundido com a expectativa de o atingir.

O futuro laboral é também equacionado enquanto cenário insondável, fluído. Nestes casos, os indivíduos têm dificuldade em sequer entrever o seu futuro. Esta impossibilidade prospectiva resulta, muitas vezes, de um olhar reflexivo sobre a realidade, isto é, na problematização da viabilidade desse exercício num contexto cada vez mais marcado pela incerteza. O futuro existe, mas não é passível de ser previsto pelo indivíduo. Emerge a este nível uma lógica de gestão do percurso laboral orientada para os desafios do quotidiano, bem como a assunção de uma certa exposição a um conjunto de dinâmicas e processos que estruturam actualmente o mercado de trabalho.
É interessante verificar que os entrevistados mais escolarizados (os Executantes de escolaridade superior) tendem a ser os que, de forma mais intensa, concebem esse recurso como o principal meio para melhorar a sua situação no mercado de trabalho. Esta estratégia pode passar pela conclusão de um nível escolar frequentado no momento da entrevista, pelo acesso à formação ou pela mobilização do capital escolar ou formativo acumulado. No pólo posto encontram-se os operários. Este grupo de entrevistados projecta o seu futuro laboral de acordo com uma lógica não cumulativa. O acesso à formação é um investimento que poucos dizem querer fazer e a mobilidade no mercado de trabalho um cenário remoto.

Os recursos escolares detidos pelos entrevistados e o seu tipo de inserção profissional parecem ter um impacto significativo na forma como antevêem o seu futuro no mercado de trabalho. É, neste sentido, pertinente questionar até que ponto estas posturas diferenciadas na forma que projectar o futuro, que estão de forma mais ou menos associadas a assimetrias de capital escolar e a diferenças de inserção profissional, poderão num momento posterior materializar-se em efectivas e expressivas desigualdades sociais?

Ver recensão do livro Jovens em Transições Precárias. Trabalho, Quotidiano e Futuro



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