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Orientações escolares dos alunos autóctones e descendentes de imigrantes: a importância da classe social e do género
Teresa Seabra, Sandra Mateus, Elisabete Rodrigues e Magda Nico

Esta investigação sublinha a importância dos condicionalismos associados à classe social de origem e ao género na configuração dos projectos escolares dos alunos, nomeadamente as suas opções escolares no término do 9º ano. Muitas vezes usada como factor explicativo das trajectórias escolares, a origem étnico-nacional revelou-se pouco operativa na compreensão das opções formativas destes alunos no finalizar da escolaridade obrigatória.



As escolhas

A passagem do 9º para o 10º ano de escolaridade, ou do ensino básico para o pós-básico, assume um carácter particularmente relevante nos trajectos escolares. A área escolhida neste importante ponto de bifurcação explica em grande parte a escolha do curso do 12º ano e, de modo subjacente, de um possível curso superior, ou seja, toda a trajectória posterior. [1] É um ponto crítico de eleição vinculativa.

Analisando os projectos dos jovens inquiridos, verifica-se que cerca de metade (51%) manifestou a intenção de prosseguir os estudos e uma proporção igualmente significativa (41%) demarcou-se pela indecisão ou pela não indicação da orientação pretendida. Os restantes casos (cerca de 8%) remetem para os alunos que pretendem deixar de estudar ao concluir o 9º ano (tabela 1).

Entre os alunos que manifestaram indecisão destacam-se os jovens descendentes de imigrantes, os alunos com origem em famílias enquadradas nas classes populares e pais que atingiram níveis de escolaridade inferiores ao ensino superior. Ao contrário, o sexo e a trajectória escolar dos alunos não parecem concorrer para esta ausência ou não manifestação da orientação pretendida.

Os alunos que indicaram pretender deixar de estudar após a conclusão do 9º ano são 18, contando-se entre eles mais alunos autóctones e ligeiramente mais rapazes. Relativamente à pertença de classe, verifica-se que estes jovens estão maioritariamente inseridos em contextos populares e nenhum dos pais possui habilitações literárias ao nível do ensino superior. As trajectórias escolares que culminaram nestas orientações estão de uma forma geral marcadas pelas reprovações: 7 alunos reprovaram uma vez, 9 alunos reprovaram duas ou mais vezes e apenas 2 deles nunca reprovaram. Esta breve caracterização dos alunos que tencionam abandonar o ensino após a conclusão da escolaridade obrigatória congrega uma série de características que parecem potenciar-se mutuamente e criar um universo de possibilidades pouco animador. Os motivos apontados por estes alunos relacionam-se principalmente com o facto de não gostarem de estudar e sentirem dificuldades na aprendizagem. Apenas dois destes jovens indicaram pretender deixar de estudar por desejar ganhar dinheiro e um deles por desejar ajudar a família.

Os alunos que manifestaram a intenção de prosseguir estudos, estão mais representados entre os jovens autóctones (reflectindo a elevada proporção de indecisos entre os alunos com origem em famílias imigrantes) e estão, sobretudo, inseridos nas classes médias/altas ou têm pais com habilitações literárias ao nível do ensino superior e são alunos que protagonizaram trajectórias escolares marcadas exclusivamente pelo sucesso escolar.

Aos alunos que prosseguem estudos, optam por um dos tipos de ensino que o sistema oferece: numa vertente mais científica/vocacional (a via de ensino); o ensino tecnológico numa vertente mais operacional; o ensino profissional claramente voltado para a prática e inserção no mercado de trabalho. Entre a primeira e as duas últimas opções poderemos identificar uma segmentação escolar, que passa pela natureza da formação, e por um diferente prestígio social atribuído, dicotomizado entre a primeira, mais prestigiada e de âmbito acentuadamente teórico-intelectual, e as segundas, menos prestigiadas, de âmbito mais prático. Estes jovens assinalaram na sua grande maioria (69%) a primeira destas opções. As raparigas, significativamente mais do que os rapazes, destacam-se entre os alunos que tencionam optar pelos cursos de ensino geral e, ao contrário destes, não elegem com tanta frequência o ensino tecnológico e profissional. Entre os alunos de diferentes origens nacionais as diferenças não assumem amplitudes tão elevadas como as encontradas para os sexos, verificando-se que os alunos descendentes de imigrantes elegem mais o ensino geral e ligeiramente menos o ensino profissional.

Os processos de escolha

Como é observável na tabela 2, a escolha do curso a frequentar faz-se, na maior parte das vezes, com a ajuda dos familiares mais próximos (pai, mãe ou irmãos); no entanto um número significativo de alunos indicou ter escolhido a opção sozinho (30%), especialmente os alunos com ascendência imigrante (37%). Os técnicos que fazem parte dos universos escolares dos alunos, como os psicólogos ou os professores, são poucas vezes indicados como importantes na tomada de decisão (8%).

Os aspectos que mais pesaram na escolha da opção escolar para o ensino secundário são muito semelhantes quer para os alunos autóctones quer para os alunos descendentes de imigrantes (tabela 3). Estes motivos passam pela adequabilidade face ao curso superior desejado, a utilidade para encontrar um emprego e o interesse sentido pelo curso.

Concluindo

Relativamente aos projectos escolares salienta-se a grande percentagem de indecisões nesta fase que marca a transição para o ensino secundário e o modo, ainda mais expressivo, como essas indecisões se fazem sentir entre rapazes, descendentes de imigrantes e entre jovens de classes populares, com pais pouco escolarizados. Salienta-se, ainda, a preferência acentuada pelo ensino geral, claramente orientado para o ensino superior (o que é reforçado nos aspectos tidos em conta como determinantes na escolha), sobretudo entre as raparigas e os alunos descendentes de imigrantes.

No apoio à escolha da opção a seguir no ensino secundário, os alunos descendentes de imigrantes surgem mais isolados, ou unicamente dependentes da família. Ainda nesta comparação com os alunos autóctones, percebe-se, ainda, que as suas opções estão ligeiramente menos dependentes das opções dos seus amigos. Relativamente aos motivos evocados para as opções eleitas, os dados apontam para um maior peso de razões associadas a interesses intrínsecos, em detrimento de razões pragmáticas, no caso dos alunos descendentes de imigrantes.

A análise conjunta da informação recolhida no projecto, permite-nos verificar que, de um modo geral, os projectos escolares dos alunos apareceram associados à qualidade da trajectória escolar que, por sua vez, está associada à classe social, à escolaridade atingida pelos progenitores (em especial pela mãe) e ao sexo do aluno.

Enquadramento institucional
Os dados apresentados são parte integrante de um projecto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia: "Jovens descendentes de imigrantes e futuro: trajectórias escolares e orientações profissionais no finalizar da escolaridade obrigatória", com coordenação científica da Doutora Teresa Seabra.

Metodologia
Tendo por objecto os jovens descendentes de imigrantes, alunos do 9º ano de escolaridade do ensino básico, na transição para o ensino secundário, pretendeu-se nesta investigação desenvolver uma abordagem multidimensional, centrada nas propriedades sociais e culturais que caracterizam os jovens e nas suas experiências quotidianas de inserção nas diferentes esferas sociais, através da identificação de: i) trajectos escolares dos jovens de descendentes de imigrantes; ii) modos de relação destes com a escola; iii) padrões de heterogeneidade e homogeneidade, tendo por referência o universo mais amplo dos jovens; iv) segmentações e hierarquizações de condições de existência, configurando identidades, trajectos e projectos.

Foi aplicado um inquérito por questionário em duas escolas da AML, com forte presença de alunos descendentes de imigrantes e a sua aplicação decorreu em Fevereiro de 2007, em todas as turmas do 9º ano. No total, inquiriram-se 10 turmas (4 turmas na escola Loures e 6 turmas na escola Sintra), o que correspondeu a um total de 220 alunos, entre os quais 73 com origem imigrante (33%). Com vista à exploração em profundidade dos principais padrões de projecção no futuro encontrados entre os jovens inquiridos, a análise, possível através dos dados do questionário, foi enriquecida com a realização de entrevistas a alunos descendentes de imigrantes e seus familiares. Foi considerado "descendente de imigrante" o aluno com, pelo menos, um dos pais nascido no estrangeiro.[2] Foram considerados alunos "autóctones" aqueles cujos progenitores eram ambos nascidos em Portugal.[3]

[1] Ver em Sérgio Grácio (1997), Dinâmicas da Escolarização e das Oportunidades Individuais, Lisboa, Educa.
[2] No inquérito foi também recolhida informação sobre a naturalidade dos avós maternos e paternos.
[3] Neste grupo incluem-se ainda algumas excepções referentes a casos em que algum dos pais nasceu numa ex-colónia portuguesa (quando os avós nasceram em Portugal) ou ainda casos de pais e/ou o próprio aluno nascerem em países tipicamente de emigração portuguesa (quando os avós nasceram em Portugal).

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