O Gráfico 1 evidencia essa mesma realidade: a taxa de crescimento do PIB em Portugal tem acompanhado de forma clara o trajecto da média de crescimento do PIB da União Europeia (na sua configuração de 15 Estados-membros) ao longo do período em análise. É, no entanto, de salientar o comportamento um pouco mais extremo da taxa de variação do PIB português nos pontos de pico: nos "anos de convergência" (até 2000) o crescimento era mais elevado que a média europeia, no período de forte abrandamento do crescimento europeu (2001-2003), Portugal chegou a entrar em recessão, com um decréscimo do produto verificado em 2003. Desde então, a economia portuguesa tem sentido algumas dificuldades em retomar o ritmo da convergência, ao crescer sempre abaixo da média europeia.

A taxa de crescimento do produto num dado lapso de tempo produz efeitos muito relevantes sobre a evolução do desemprego em período análogo. O desemprego tende a decrescer à medida do ritmo de crescimento económico, podendo tal suceder de forma mais ou menos vincada de acordo com a intervenção de vários outros factores. Em geral verifica-se um ligeiro desfasamento temporal do decréscimo do desemprego face ao aumento do produto, sendo o aumento do número de postos de trabalho disponíveis a consequência de um período de crescimento económico relevante. Essa relação inversa está claramente expressa no Gráfico 2, onde consta a evolução do crescimento do PIB e do desemprego na União Europeia a 15 para o período 1998-2007. A taxa média de desemprego na Europa decresce no período 1998-2001, acompanhando o crescimento do PIB para o mesmo período, ano após o qual inverte a tendência, passando a subir de forma moderada de acordo com o abrandamento do crescimento do produto. A partir de 2003, o crescimento do PIB, embora irregular, permite a retoma do decréscimo paulatino do desemprego na Europa.


O Gráfico 3 evidencia a diferença de comportamento destes dois indicadores no caso da economia portuguesa. O ritmo elevado de crescimento do PIB até ao ano 2000 permitiu a redução da taxa de desemprego para um nível próximo do pleno emprego técnico (4%). A contínua desaceleração do crescimento do produto e, sobretudo, a retracção ocorrida em 2003 provocam um consequente aumento do desemprego para um nível relativamente elevado. A novidade constante neste gráfico é a manutenção da taxa de desemprego num nível razoavelmente alto e mesmo uma ligeira subida nos anos subsequentes, apesar da recuperação económica então ocorrida. A interpretação deste resultado não é fácil. Será de supor a existência de um limiar mínimo de crescimento real do PIB (acima de 2%, neste caso) a partir do qual se processa a diminuição do desemprego? Ou, por outra via, tal acontece porque entretanto se produziu uma alteração estrutural, na estrutura produtiva e no mercado de trabalho, que impede a recuperação do emprego em segmentos específicos da mão-de-obra?
A comparação dos volumes da população activa desempregada entre Portugal e a média europeia, para os estratos etários dos 15 aos 24 anos e dos 25 aos 74 (ver Gráfico 4), indica um certo efeito de convergência do desemprego no nosso país para níveis próximos e até ligeiramente superiores aos apresentados pelos 15. Entre 2000 e 2007 processou-se a duplicação do desemprego em Portugal nos dois escalões etários em análise, ao contrário da relativa estabilidade e mesmo ligeiro decréscimo no final do período da média europeia. O declive da curva demonstra uma subida mais intensa e rápida por parte do desemprego entre os mais jovens no período crítico de menor crescimento, seguido de recessão entre 2000 e 2003. No entanto, a tomada em consideração da série entre 2000 e 2007 postula o crescimento mais gravoso do desemprego para o estrato entre os 25 e os 74 anos, com uma taxa próxima da duplicação dos dados relativos.

A análise do desemprego por nível de qualificações escolares para o último período do ano em análise (final do 4º trimestre de 2007) acentua o ritmo e feição diferenciais do crescimento do desemprego em Portugal face à média da União (ver Gráfico 5). A comparação dos números do desemprego para os dois escalões etários em análise indica que o mesmo é sempre superior em Portugal face à média Europeia, com a excepção do verificado entre os detentores de qualificações mais baixas (ISCED 0-2, ou seja, o equivalente ao 9º ano de escolaridade). Há, no entanto, uma diferença fundamental entre estes dois últimos dados: enquanto, para a média europeia, é residual a percentagem de indivíduos entre os 15 e os 24 anos detentores de qualificações escolares ao nível do ISCED 2; em Portugal a proporção situa-se em cerca de 1/3 da coorte.

Há, todavia, uma conclusão mais inquietante a retirar desta análise do desemprego em função das coortes etárias e níveis de qualificação. O gráfico sugere que, em termos médios europeus, o desemprego desce à medida da progressão da qualificação escolar da mão-de-obra; em Portugal verifica-se o fenómeno inverso para os indivíduos entre os 15 e os 24 anos (o desemprego é significativamente alto para os detentores de qualificações escolares superiores) e uma relativa imutabilidade na coorte dos 25 aos 74 anos (embora seja muito significativo que a taxa de desemprego para os graduados do ensino superior nesta faixa etária em Portugal duplique o registado pela média europeia). Embora seja preocupante que a taxa de desemprego dos graduados do ensino superior no escalão etário 15-24 se cifre acima dos 25%, tal deve ser relativizado pelas características específicas deste segmento da mão-de-obra. Trata-se de um conjunto de indivíduos recentemente saídos das universidades, na maior parte dos casos sem qualquer experiência profissional, e cujos primeiros anos de actividade se desenvolvem em postos de trabalho precários, demorando algum tempo até encontrar uma relativa estabilidade laboral. Na coorte etária seguinte (25-39), a taxa de desemprego em Portugal, para este nível de qualificação, baixa para cerca de 11% (Eurostat, 2007).
O conjunto de dados aqui analisado projecta um cenário pouco favorável para a evolução previsível do desemprego em Portugal no curto e médio prazo. O contexto económico internacional e nacional é de estagnação ou mesmo de quebra do produto e foi demonstrado o modo como produz efeitos na taxa de desemprego. Para além desse factor, há ainda que prestar uma especial atenção a uma ainda não totalmente demonstrada especificidade da economia e sociedade portuguesas, com efeitos muito prejudiciais para o seu desenvolvimento futuro: a problemática integração laboral e manutenção dos postos de trabalho dos graduados do ensino superior.