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Sociedade e Conhecimento - Portugal no Contexto Europeu, vol. II.

Costa, António Firmino, Fernando Luís Machado e Patrícia Ávila (2007) (orgs.), Sociedade e Conhecimento: Portugal no Contexto Europeu vol.II, Oeiras, Celta.



Factor decisivo nos processos de estruturação da realidade social e económica, o conhecimento serve de mote, nesta obra, para a análise e problematização de um leque diversificado de áreas temáticas. Da leitura dos vários capítulos, conclui-se que o capital escolar tende a criar e reproduzir situações de desigualdade social em Portugal. O desprovimento relativo de recursos escolares por parte da população portuguesa coloca o país numa posição desfavorável no plano internacional [1].

António Firmino da Costa, Fernando Luís Machado e João Ferreira de Almeida propõem-se situar a distribuição da estrutura de classes portuguesa no quadro mais vasto dos agregados de classe europeus. A composição da estrutura dos lugares de classe portuguesa demonstra que, no plano europeu, Portugal é dos países em que a porção dos trabalhadores que exercem actividades profissionais funcionalmente pouco qualificadas é maior. Tal como na Grécia e na Polónia, predominam na estrutura de lugares de classe portuguesa os operários e os empregados executantes, enquanto que os profissionais técnicos e de enquadramento assumem uma expressão bastante reduzida. Os agregados de classe transnacionais estruturam-se de acordo com a actividade profissional dos sujeitos, mas também a partir de outras variáveis, a mais importante das quais é a escolaridade. Portugal apresenta um perfil de lugares de classe no qual sobressaem as categorias profissionais pouco qualificadas; todavia, além disso, nas cinco categorias profissionais usadas como indicador de aferição dos lugares de classe, os portugueses contam menos anos de estudo do que os europeus pertencentes às mesmas categorias profissionais. Por exemplo, em média, um empresário, dirigente ou profissional liberal português estudou 7,8 anos; no resto dos países europeus analisados esse valor foi de 13,3 anos:

"Agentes ocupantes dos mesmos lugares estruturais podem ter recursos educativos bastante desiguais em países ou agregados transnacionais diferentes" (p.18).

 A baixa qualificação da população portuguesa relativamente a países da UE-25 é também um dos focos da análise de Rosário Mauritti e de Susana Martins. Segundo referem, em 2002, apenas cerca de 40,0% da população portuguesa com idade entre os 25-34 anos tinha concluído o ensino secundário ou o superior. Entre os países da UE-25, nesse grupo etário, a população com o perfil escolar mencionado superava os 80,0%. Para além de baixos níveis relativos de qualificação escolar, Portugal apresenta também índices elevados de reprodução social desse tipo de recursos. Ao analisarem a origem social dos estudantes do ensino superior, as autoras verificam que estes provêm, na sua maioria, de famílias ricas em capital escolar e posicionadas no topo da estrutura de lugares de classe: 35,7% e 16,4% dos estudantes do ensino superior provinham de famílias com o ensino superior e secundário, respectivamente; 40,4% desses estudantes era oriunda de agregados domésticos integrados na categoria dos profissionais técnicos e de enquadramento. Ora o peso relativo dos portugueses com este perfil na população com idade entre os 45-64 anos (idade esperada dos pais dos estudantes) é bem menos expressivo do que o peso proporcional dos estudantes com esse tipo de origem social no universo da população que frequenta o ensino superior. Porém, embora os dados indiciem uma tendencial reprodução social no acesso ao ensino superior, o facto de uma parcela importante dos estudantes universitários ser proveniente de famílias situadas em lugares desfavorecidos da estrutura de classes demonstra, segundo as investigadoras, a existência de um "duplo padrão de recrutamento" (p. 90) desses alunos.

Segundo os dados analisados por Maria de Lurdes Rodrigues, Luísa Oliveira e Helena Carvalho, o mercado de trabalho está, em Portugal, bastante segmentado de acordo com as qualificações escolares dos indivíduos. Entre a população empregada existem três grandes grupos socioprofissionais: os trabalhadores mais velhos, pouco escolarizados, que desempenham profissões que exigem pouca qualificação; um segundo grupo onde se integram os trabalhadores mais jovens, com qualificação intermédia, que são principalmente operários, administrativos, trabalhadores nas Forças Armadas e técnicos de nível intermédio; o terceiro grupo é composto pelos mais escolarizados, que trabalham em sectores de actividade mais exigentes do ponto de vista qualificacional. As investigadoras centram, num segundo momento, a sua atenção analítica nas áreas de actividade da população portuguesa com diploma superior. Concluem que o sector público de actividade absorve a maior parte dos trabalhadores com este tipo recurso escolar, mas também que o segmento das indústrias e serviços de maior valor acrescentado acolhe uma fracção bastante reduzida desta população (apenas 3,2% dos licenciados e pós-graduados) - dado negativo, visto que este é um sector de actividade crítico para a competitividade da economia portuguesa num mundo globalizado.

Os recursos escolares mostram-se igualmente bastante operativos na definição de um conjunto de práticas de acesso ao conhecimento, à informação e à cultura. Gustavo Cardoso, Maria do Carmo Gomes e Cristina Palma Conceição debruçam-se sobre "As práticas comunicacionais na sociedade em rede". Também a este nível existe uma "cisão" (p. 52) na sociedade portuguesa entre os mais escolarizados (que utilizam bastante a internet) e os destituídos desse capital (que tendem a não utilizar esse utensílio). A variável idade mostra-se, contudo, determinante na definição do perfil dos utilizadores de intenet, visto que mesmo os jovens com poucos recursos escolares se servem desse meio com frequência: segundo dados de 2003, 44,1% da população com idade entre os 15-29 anos, que tinha concluído no máximo o ensino básico, utilizava internet; apenas 37,0% da população com 50 ou mais anos que concluiu o ensino superior também o fazia.

Por seu lado, António Firmino da Costa, Cristina Palma Conceição e Patrícia Ávila atêm-se na questão da "Cultura científica e modos de relação com a ciência". Os autores passam em revista um conjunto de pesquisas nacionais e internacionais feitas nessa área de investigação, e referem que, em temos gerais, os portugueses têm níveis de conhecimento sobre ciência e práticas potenciadoras de acesso a esse conhecimento mais baixo(a)s do que as médias europeias - embora os níveis de conhecimento sobre ciência e as práticas de acesso ao conhecimento/universo científico sejam mais elevados entre os portugueses com escolaridade elevada. É apresentada uma tipologia de modos de relação com ciência, cujas categorias que revelam maior proximidade face a este campo são precisamente as que atingiram níveis escolares mais elevados (pp. 74-75).

Numa sociedade em que a informação e o conhecimento são dimensões centrais dos processos de estruturação social e económica, a capacidade de descodificação e utilização da escrita é uma exigência com que o indivíduo se depara, de forma intensa, nos mais variados contextos. De acordo com os dados tratados por Patrícia Ávila, a população portuguesa apresenta níveis de literacia documental, quantitativa e de prosa bastante baixos. No quadro da OCDE, apenas o Chile apresenta resultados piores. Todavia, a posição ocupada por Portugal nessa comparação internacional varia bastante quando introduzida a variável "escolaridade": entre os respondentes que concluíram o ensino superior, os portugueses têm níveis de literacia intermédios; quanto aos que completaram o ensino secundário, Portugal consegue o quarto melhor resultado.

"Se o país, quando observado a partir dos mais escolarizados, parece acompanhar as sociedades mais desenvolvidas, quando perspectivado na óptica dos menos escolarizados (que são a maioria da população) surge duplamente em desvantagem: o défice de escolarização é reforçado por um défice de competências, mais acentuado do que seria de esperar" (p.35).

Importa ainda referir o contributo de José Luís Casanova. O autor introduz o conceito de orientações sociais, discute-o do ponto de vista substantivo e analisa os dados que resultaram da sua operacionalização. Definindo as orientações sociais como as "orientações relativas às condições sociais de vida" (p. 166), procura analisar a forma como os portugueses entendem as lógicas de estruturação das condições de existência e o modo como essas mesmas representações variam de acordo com variáveis de caracterização sociográfica. Em termos gerais, conclui que a maior parte dos portugueses tem orientações "igualitárias pró-activas", embora este tipo de disposição esteja mais densamente presente entre indivíduos com trajectórias sociais ascendentes, enquanto que a orientação não igualitária e não pró-activa desenvolvem-se tendencialmente por quem percorreu trajectórias reprodutoras de posições desfavoráveis no espaço das classes.

Frederico Cantante

[1] Nesta recensão centrar-nos-emos nos capítulos que abordam, de forma mais directa, a problemática das desigualdades sociais.


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