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O Investimento das Famílias na Escola. Dinâmicas Familiares e Contexto Escolar Local

Diogo, Ana Matias (2008), O Investimento das Famílias na Escola. Dinâmicas Familiares e Contexto Escolar Local, Oeiras, Celta Editora.



Esta obra apresenta os resultados de uma investigação sobre os processos que produzem diversidade nas carreiras escolares no final da escolaridade obrigatória, nas escolas de S. Miguel, Açores. A análise é feita em dois domínios: a família e o contexto escolar local, tomando como centrais os jovens, actores plurais na confluência dos dois contextos.

O crescimento da procura de diplomas escolares, cada vez mais generalizados e conferentes de níveis elevados de habilitações, é analisado à luz da evolução do investimento das famílias na escolaridade, que em Portugal ocorreu principalmente a partir dos anos 60 do século XX. Tendo por base esta constatação, o objectivo da autora é apreender as dinâmicas deste investimento feito pelas famílias, caracterizado pela centralidade da orientação escolar nas estratégias de perpetuação social, bem como no quotidiano das interacções familiares. Por outro lado, pretende-se descortinar a manutenção da heterogeneidade das carreiras escolares, reflexo de diferenças sociais e de género. Para além da abordagem aos mecanismos geradores de desigualdades na esfera da família, sendo esta um espaço potenciador de dinâmicas de (re)produção de classe, a autora realça a importância da análise do contexto escolar local, factor de influência nos investimentos das famílias. Coloca-se a hipótese de que esse contexto gera diferenças entre os trajectos escolares, independentemente dos atributos individuais dos alunos (o aproveitamento escolar, condição social ou género).

A obra está dividida em sete capítulos, sendo os três primeiros dedicados a revisões teóricas e bibliográficas acerca i) da evolução do investimento escolar das famílias; ii) e iii) dos mecanismos accionados no contexto familiar e no contexto escolar local, tendo em vista o sucesso deste investimento. Abordam-se a expansão da procura escolar e a evolução das oportunidades sociais e de género, nos países ocidentais, após a IIª Guerra Mundial, num quadro de mudanças que incluíram a valorização da escolarização como investimento no capital humano, promoção de igualdade de oportunidades e a reconfiguração da estrutura socioprofissional (por exemplo, a terciarização, que exigia a detenção de diplomas escolares). As qualificações escolares têm uma crescente importância nos destinos profissionais e sociais dos indivíduos. Em Portugal continental e também nos Açores, ocorreu uma mudança no investimento das famílias a partir dos anos 60 - este passa a fazer-se no sentido dos jovens terminarem a escolaridade obrigatória; nos anos 90 o objectivo é a maior progressão possível no ensino. Este investimento prende-se com a desvalorização dos diplomas, agora essenciais para a inserção profissional, exigindo-se cada vez mais habilitações. Quanto ao género registam-se também mudanças significativas: as raparigas obtêm um maior aproveitamento e nível de progressão nos estudos do que os rapazes. Apesar deste aumento generalizado da escolaridade, as desigualdades sociais perduram, devido à influência da família de origem na trajectória escolar e à concorrência por graus de escolaridade elevados e raros, que evitem processos de mobilidade social descendente.

Os restantes quatro capítulos apresentam os resultados da investigação, que teve como objecto de estudo os alunos que terminam o 9ºano nas escolas de S. Miguel, abordando em primeiro lugar as escolhas, processos de decisão e projectos dos jovens. Num momento posterior são analisados um conjunto de factores estruturantes do sucesso escolar dos jovens, associados às variáveis família e contexto escolar. Desta forma, as principais conclusões, resumidas de seguida, desenham-se em duas linhas: em primeiro lugar, os perfis distintos de jovens, no que respeita às suas orientações e investimento escolar; o impacto das dinâmicas familiares e do contexto escolar na definição do investimento e trajectórias escolares dos jovens.

Quanto aos perfis, a autora encontrou quatro grandes grupos:

Jovens com projectos intermédios e pouco orientados - representam 26% da amostra, situando-se entre os dois pólos extremos de perfis, quanto ao investimento escolar. São em geral jovens do sexo masculino, que limitam os seus projectos escolares ao ensino secundário. Esses projectos resultam porém de decisões conturbadas, quer em relação à admissibilidade da prossecução dos estudos, quer no que toca ao tipo de orientação escolar a seguir. Enquadram-se também neste grupo os jovens que optam pelo ensino tecnológico. O desempenho escolar é baixo, com reprovações e uma auto-percepção correspondente. As suas ambições quanto à carreira (ainda indefinida) e salário são baixas. Há falta de comunicação com os pais sobre a escola, que não se envolvem no apoio aos trabalhos escolares (por falta de conhecimentos, visto deterem baixa escolaridade), sendo este prestado pelos irmãos. A educação caracteriza-se pela falta de autodisciplina e tempos livres orientados para o hedonismo. A família tem uma condição social baixa.

Raparigas vocacionadas para as humanidades - representam 24% da amostra, aproximando-se do pólo máximo. São principalmente raparigas, decididas quanto à sua orientação, optimistas, pretendem prosseguir os estudos e seguem a área das humanidades por motivação pessoal. Desejam enveredar por profissões intelectuais e científicas, têm motivação e bom aproveitamento escolar. Os pais não influenciam as decisões, nem apoiam os trabalhos, por incapacidade (origem social popular) e por não haver necessidade.

Jovens optimistas, decididos e vocacionados para as ciências - representam o pólo máximo do investimento escolar. São de ambos os sexos, informados, decididos, orientam-se para as ciências (a sua única opção) sem serem influenciados, por motivação pessoal e pelas possibilidades profissionais futuras. Pretendem seguir os estudos e ter profissões intelectuais e científicas, valorizando os diplomas. O desempenho escolar é óptimo e o envolvimento nas tarefas associadas a esse universo decorre da sua iniciativa própria. Pertencem a famílias de classes mais elevadas e escolarizadas, que apoiam o trabalho escolar de forma indirecta e a sua fratria é pequena, com semelhantes percursos escolares.

Jovens que desvalorizam a escola - representam 24% do total da amostra e situam-se no pólo oposto ao perfil anterior. Orientam-se, indecisos, para o abandono, ensino profissional ou repetição do 9º ano. As escolas que frequentam não têm ensino secundário. Escolar e profissionalmente são pouco ambiciosos, dão pouco valor aos diplomas escolares e consideram as suas oportunidades futuras razoáveis ou fracas. Revelam o pior desempenho escolar, com uma auto-imagem correspondente, uma experiência escolar negativa, desmotivação, fraco empenho e investimento escolar. São provenientes de famílias de classe popular rural detentoras de baixos recursos escolares, com fraca aposta escolar, a fratria é numerosa e desmobilizada face aos estudos. Os jovens ajudam no trabalho familiar rural.

O impacto das dinâmicas familiares nos percursos escolares dos jovens foi analisado a partir dos investimentos escolares das famílias, em três dimensões fundamentais: i) envolvimento dos pais na escolaridade; ii) funcionamento global da família, incluindo práticas educativas, relação com a cultura letrada e coesão familiar; iii) fratria. Neste domínio foi possível concluir que o diálogo com os pais, a iniciativa destes nos contactos com a escola, o apoio da mãe nos trabalhos escolares e a autodisciplina dos jovens na realização destes, a obediência, autonomia, partilha conjugal das tarefas domésticas, actividades culturais, práticas de leitura e jogos em família e, por fim, a trajectória escolar dos irmãos, são factores positivamente correlacionados com o envolvimento e investimento no trabalho escolar. Em sentido contrário, a pouca autonomia dos jovens, a falta de autodisciplina nos trabalhos familiares, o recurso ao castigo e à repreensão, a dimensão alargada da fratria e a posição intermédia do jovem na mesma, a pouca frequência dos contactos familiares com a escola, a prestação de apoio pelos irmãos aos trabalhos escolares e a televisão como principal ocupação conjunta da família, exercem um impacto negativo no investimento e envolvimento escolar.

Resta, então, abordar os resultados obtidos quanto ao impacto do contexto escolar local na definição das trajectórias dos jovens. São analisadas quatro variáveis estruturantes: i) espaço local; ii) estabelecimento; iii) turma e iv) grupo de amigos. A principal conclusão prende-se com o facto de estas exercerem uma influência importante nas carreiras escolares à margem dos atributos individuais. São a turma e o grupo de amigos (factores mais próximos do jovem) que mais peso têm na definição das trajectórias. O conselho de residência e as suas características (habitat, taxa de procura do ensino secundário e taxa de população empregada no sector secundário), a oferta local de ensino secundário e a dimensão e composição social do estabelecimento escolar têm também impactos significativos no projecto de progressão nos estudos.

Destaca-se nesta obra a conceptualização individual do jovem, posicionado na convergência de contextos que influenciam as suas escolhas e orientações na carreira escolar. A origem social, o género dos jovens e o seu aproveitamento escolar no 9º ano, de forma particular, mostraram-se bastante operativos na definição das suas trajectórias escolares e nos modos como projectam o futuro. Num contexto local em que o abandono ao longo do ensino básico é superior às médias regionais e nacionais, as dinâmicas familiares e o contexto escolar mostraram-se, da mesma forma, factores decisivos na configuração dessas mesmas trajectórias e orientações.

Inês Baptista


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