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La Raison Scolaire

Lahire, Bernard (2008), La Raison Scolaire: École et Pratiques D'Écriture, entre Savoir et Pouvoir, Rennes, Presses Universitaires de Rennes.



A explicação do insucesso escolar deve ser construída a partir da análise dos modos de relação dos alunos com o tipo de linguagem veiculada pela escola. A operatividade do capital cultural das famílias de origem na definição das trajectórias escolares dos alunos depende, em grande parte, das condições de transmissão desse tipo de disposições.

Esta obra é um compêndio de artigos científicos e capítulos de livros, produzidos por Bernard Lahire, integrados no espaço teórico da socióloga da educação e do conhecimento. A problemática comum à maioria dos textos nela agregados refere-se à problemática da natureza da linguagem escolar e aos modos de relacionamento dos alunos com esta forma específica de codificação dos discursos e da escrita.

Por subentender a reflexão aquando da sua interiorização e accionamento, a linguagem escolar distancia-se da linguagem prática e dos seus modos de enunciação (linguagem gestual, onomatopeias, sentidos implícitos da mensagem transmitida...). Embora o autor admita que as trajectórias escolares dos alunos são influenciadas por factores exteriores ao contexto escolar, defende que o conhecimento sociológico acerca desta questão ganha inteligibilidade se forem analisados os processos de ensino-aprendizagem que se desenrolam nesse mesmo contexto. A escola existe num universo social que necessariamente a estrutura. Mas a compreensão científica da estruturação dos desempenhos dos alunos por factores externos tem de ter em consideração os princípios escolares de produção do sucesso e do insucesso. Neste sentido, Lahire defende a necessidade de se perceber o sucesso/insucesso escolar analisando antropologicamente as formas e lógicas que o potenciam nos quadros de interacção escolares. Neste sentido, um dos desafios que se colocam à Sociologia é descobrir as diferenças sociais que decorrem e emergem deste hiato entre a linguagem prática e a escolar.


"Embora possamos acreditar que ao estudarmos a forma escolar de socialização autonomizamos abusivamente essa instituição e esquecemos, desse modo, o problema das diferenças sociais ou as relações das classes sociais com a instituição escolar (que é o que analisam justamente as teorias da reprodução), apercebemo-nos, pelo contrário, que ao estudar a especificidade da forma escolar é possível reinterrogar a questão das relações dos diferentes grupos e classes com a escola" (p. 48, tradução própria).

"As práticas escolares textuais (de entre uma série de outras) são práticas pelas quais se criam e recriam diferenças sociais. É este o interesse particular de uma análise dos produtos escolares em meios socialmente diferenciados: não se trata de um simples registo, na ordem linguística, de quaisquer diferenças sociais, mas de práticas que contribuem para produzir e reproduzir as diferenças sociais. As práticas pelas quais se operam as diferenças entre os grupos sociais ilustram, deste modo, a especificidade cultural dos grupos sociais que dependem objectivamente mais da escola" (p.125, tradução própria).

O autor demonstra que as características dos textos escritos por parte de alunos que frequentam o ensino primário tendem a variar de acordo com a família de origem dos mesmos (pp. 121-123). Por exemplo, os filhos de operários são os que menos expressões valorizadas na escola utilizam, cujos textos apresentam maior número de incoerências temporais, que cometem mais incorrecções na expressão de ideias e na pontuação...

Nesta colectânea de textos sociológicos, Lahire aborda ainda a questão da transmissão do capital cultural. Opondo-se às teorias "ambientalistas" (p.144), segundo as quais as heranças culturais passam de pais para filhos de forma descontextualizada, quase natural, o autor sublinha que a transmissão desse tipo de recursos obedece a processos de comunicação e interacção específicos. A riqueza ou destituição de capital cultural no interior da família não é, por si, factor bastante na determinação do perfil disposicional dos descendentes. Por exemplo, o facto de uma família deter baixos recursos culturais pode potenciar a aquisição desse tipo de capital por parte dos seus descendentes - o autor refere que em famílias analfabetas os filhos são, por vezes, encarregues de tratar da correspondência ou ajudar os pais nas tarefas de leitura e escrita, facto que favorece a sua aproximação à cultura escolar e a valorização da mesma.

As heranças culturais e a sua importância na definição das trajectórias escolares das crianças e jovens devem, portanto, ser enquadradas na problemática das modalidades de transmissão do capital cultural no seio da família. A reprodução do capital cultural e a relação deste fenómeno com a socialização escolar não decorre de um processo de pura atracção ontológica, pela qual os capitais escolares das famílias tendem a determinar o sucesso ou insucesso escolar dos seus descendentes. Assenta, isso sim, em situações e lógicas de interacção concretas (que evoluem ao longo do tempo) passíveis de favorecer ou não a transmissão de disposições culturais entre pais e filhos. A operatividade do capital cultural depende da sua rentabilização por parte dos actores sociais.

"O capital escolar é desigualmente rentável segundo um conjunto de outros elementos do contexto familiar no qual ele se insere ou ao qual está associado. Ele não rende da mesma maneira em todos os contextos no qual existe" (p.137, tradução própria).

 Família e escola apresentam-se, portanto, como contextos que se influenciam reciprocamente. Lahire chama a atenção para o facto de os processos sociais que decorrem da interpenetração destes dois universos não se pautarem por leis de estruturação lineares e previsíveis. Trajectos escolares desiguais não exprimem necessariamente proveniências sociais assimétricas, pois podem estar associados, isso sim, a modos pouco eficazes de transmissão e investimento do/no capital cultural.

Frederico Cantante


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