OK 
     
ApresentaçãoEstudosBibliografiaEstatísticas e Bases de DadosIndicadoresPublicaçõesNotícias e EntrevistasNewslettersLigações
Home >  Publicações >  Outras Publicações  > 
Publicações


"Desigualdades sociais e diferenças culturais: os resultados escolares dos filhos de imigrantes africanos"

Machado, Fernando Luís, Ana Raquel Matias e Sofia Leal (2005), "Desigualdades sociais e diferenças culturais: os resultados escolares dos filhos de imigrantes africanos", Análise Social, nº 176, vol. XL, 695-714.



Neste artigo é feita um questionamento da importância da variável etnia e criticado o excesso de relevância que lhe tem vindo a ser atribuída em Portugal nos estudos sobre educação. Para tal, são usados dados quantitativos que indicam o peso da classe social, do género ou da localização geográfica na definição das trajectórias escolares e de algumas representações face à escola.

A centralidade explicativa que a aproximação multiculturalista tem vindo a assumir nos estudos sobre o campo da educação em Portugal é considerada pelos autores como uma "forma de desconhecimento" que encobre processos de estruturação social mais vastos. Partindo de uma amostra de 1000 indivíduos dos dois sexos, com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos, filhos de famílias provenientes dos PALOP's (de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, São Tomé), residentes na região de Lisboa, a pesquisa assenta em três vertentes fundamentais: a evolução familiar das habilitações escolares, a comparação dos níveis de escolaridade obtidos pelos filhos de imigrantes face aos jovens portugueses em geral e as diferenças que neste plano se encontram no interior da amostra recolhida.

Existe uma alteração bastante significativa do perfil escolar dos filhos de imigrantes africanos relativamente às suas famílias, pois enquanto entre os primeiros o grau escolar atingido mais frequente é o ensino secundário, a maior parte dos seus pais e mães quedou-se pelo 1º ciclo (e mais de 60% destes não chegaram a frequentar o 3º ciclo). Esta alteração intergeracional no acesso à escola é acompanhada por uma outra: nas gerações mais velhas os homens apresentam níveis de escolaridade superiores às mulheres, entre os inquiridos estas ultrapassam os homens na frequência dos patamares mais elevados do ensino (52,7% e 19,7% das filhas de imigrantes africanos atingiram, respectivamente, o ensino secundário e superior, para 43,5% e 16,9% entre os efectivos do sexo masculino), tal como acontece, de resto, na população portuguesa em geral.

Embora admitam que a comparação entre os níveis de escolaridade dos inquiridos e o da população portuguesa com o mesmo perfil etário possa ser perturbada por questões de natureza metodológica, histórica e geográfica (o "efeito Lisboa" na elevação dos níveis médios de escolaridade), os autores concluem que não existem diferenças significativas entre estas populações - aliás, o número relativo de jovens filhos de imigrantes que atingiram o ensino secundário é largamente superior face ao que sucede com os jovens portugueses em geral.

A focagem da análise nas diferenças existentes dentro da amostra, no que diz respeito à distribuição das habilitações escolares, demonstra que as trajectórias escolares destes jovens variam de forma bastante marcada de acordo com a sua origem de classe. Existe, portanto, uma reprodução familiar do grau de escolaridade atingida, que, em geral, dota as gerações mais novas de maiores habilitações do que as suas famílias, mas implica que no presente os níveis de escolaridade desses jovens tendam a variar bastante de acordo com a sua classe social.

Esta correlação aplica-se também às expectativas dos jovens inquiridos face ao nível de escolaridade que esperam atingir (a ideia de realismo social). Neste sentido, e independentemente da origem étnica, os filhos de famílias com maiores habilitações escolares são os que mais longe vão nesse percurso e maiores expectativas acalentam face à sua trajectória futura, e vice-versa. Todavia, a origem étnica mostrou-se também um atributo diferenciador a este nível - os luso-guineenses e os luso-são-tomenses são os que apresentam piores resultados (principalmente ao nível do grau de ensino atingido, na medida em que os indicadores relativos às expectativas de estudo e às atitudes face à escola mostram-se menos claros). A língua e o tempo de permanência em Portugal destes jovens e suas famílias parecem ser factores que, pelo menos a título secundário, poderão ser relevantes para a compreensão do sucesso/insucesso escolar.

Frederico Cantante

Link para artigo 


  Publicações do Observatório

Conteúdos Relacionados

Sociedade e Conhecimento - Portugal no Contexto Europeu, vol. II.
La Raison Scolaire
A Literacia dos Adultos: Competências-Chave na Sociedade do Conhecimento
O investimento em educação em Portugal: retornos e heterogeneidade
O Investimento das Famílias na Escola. Dinâmicas Familiares e Contexto Escolar Local