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Unequal Ageing

Cann, Paul e Malcolm Dean (2009), Unequal Ageing: the Untold Story of Exclusion in Old Age, Bristol, Polity Press.



A obra debruça-se sobre a produção social das desigualdades na velhice. Apesar da focagem sobre a realidade do Reino Unido, as tendências esboçadas e as reflexões promovidas a propósito deste fenómeno são transponíveis para outras sociedades, nomeadamente para a portuguesa.

Unequal Ageing é composto por oito ensaios que abordam a problemática das desigualdades sociais na velhice, através de uma análise dos mecanismos de produção dessa realidade e das várias dimensões em que ela se desdobra. As desigualdades de rendimento entre a população idosa e a não-idosa ou a maior incidência da pobreza sobre aquela, por exemplo, são questões levantadas e analisadas em várias passagens do livro.

No ensaio "Too tight to mention: unequal income in older age", Thomas Sharf enquadra os elevados níveis de pobreza da população idosa numa descrição mais alargada da desigualdade na distribuição do rendimento existente no Reino Unido. Ao contrário das desigualdades de rendimento, que têm aumentado na última década, a porção de idosos em risco de pobreza (após despesas com a habitação) diminuiu de forma significativa nesse período de tempo: de 29% em 1996/7 para 17% em 2005/6 - embora em 2007/8 esse indicador tenha aumentado para 18%. Apesar desta tendência, o autor chama a atenção para o facto de mais de dois milhões de idosos do Reino Unido viverem numa situação de pobreza.

A pobreza entre os idosos distribui-se desigualmente no Reino Unido de acordo com os atributos sociais dos indivíduos e obedece a lógicas de estruturação social específicas. É referido que, por exemplo, 2/3 dos pobres idosos do Reino Unido são mulheres e que 43,0% dos idosos originários do Bangladesh ou do Paquistão são pobres. A pobreza da população idosa e a sua incidência relativa decorre, portanto, da trajectória social dos indivíduos, dos recursos económicos, relacionais ou habitacionais amealhados ao longo desse percurso.

O texto "Why is ageing so unequal?", de Alan Walker, é a este nível particularmente interessante. As desigualdades entre a população idosa reflectem biografias estruturalmente heterogéneas no que diz respeito à acumulação de recursos. O montante das pensões ou a posse ou não de habitação, factores decisivos na produção de desigualdades entre a população idosa, são decorrências da acumulação desigual de capital escolar e de inserções profissionais mais ou menos proveitosas do ponto de vista remuneratório. As desigualdades sociais na velhice são, portanto, concretizações, por vezes exponenciadas, de biografias socialmente heterogéneas.

Um dos tipos de desigualdade que é analisado em alguns dos ensaios deste livro é o bem-estar físico, mais concretamente a distribuição desigual da saúde de acordo com a classe social. A história social do indivíduo, marcada por práticas/cuidados com o corpo e a saúde diferenciados, por possibilidades económicas desiguais de combate à doença ou por inserções profissionais mais ou menos desgastantes do ponto de vista físico, inscreve-se na condição física detida aquando da velhice e tende a determinar a amplitude da esperança de vida e a sua qualidade (ver texto "The uneven dividend: health and well-being in later life", de Anna Coote, ou o texto de Alan Walker, pp. 146-47).

A desigualdade dos idosos é também equacionada nesta obra sobre o ponto de vista simbólico. De facto, para além das desigualdades materiais, os idosos são socialmente excluídos no que toca ao modo como a sociedade representa a velhice. Segundo Julia Neuberger, o Reino Unido é uma sociedade na qual existe uma tendência dominante para caricaturar o idoso ("ageist society", p. 101), facto que se explica por três razões essenciais: incomunicabilidade entre os grupos etários, a negação generalizada da morte e o custo económico que os idosos acarretam para a sociedade.

Num momento em que o peso relativo dos grupos etários mais velhos tem vindo e vai continuar a aumentar em sociedades como o Reino Unido, é levada a cabo nesta obra uma problematização das desigualdades materiais e simbólicas associadas a esse processo, mas são também apresentadas algumas estratégias e medidas (sectoriais ou estruturais) que as possam minorar.

Frederico Cantante


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