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Class, Individualization and Late Modernity

Atkinson, Will (2010), Class, Individualization and Late Modernity: in Search of the Reflexive Worker, Hampshire, Palgrave Macmillan. 



A obra procura refutar os pressupostos das teorias da reflexividade e da individualização, demonstrando o poder estruturante das classes sociais na explicação das práticas, atitudes e trajectórias sociais.

Em Class, Individualization and Late Modernity Will Atkinson promove uma crítica das teorias da reflexividade e da individualização a partir da confrontação dos seus pressupostos e conclusões com a informação empírica resultante de 55 entrevistas a trabalhadores ingleses. A este tipo de perspectivas analíticas, Atkinson opõe a conceptualização bourdieusiana da estrutura de classes e a centralidade que os recursos e disposições a ela associado(a)s assumem na definição das práticas, atitudes e trajectos de vida.

Os primeiros capítulos do livro são destinados ao enquadramento teórico do estudo. É apresentada uma síntese de quatro formulações e propostas analíticas que, no entender do autor, se afiguram como os principais suportes das teorias da reflexividade – ou, pelo menos, os que assumem uma maior relevância no campo da Sociologia. Ulrich Beck e Zygmunt Bauman são categorizados como autores cujo principal enfoque analítico se atém no processo de “individualização”, enquanto Anthony Giddens e Margaret Archer se debruçam sobre a problemática da “reflexividade na modernidade tardia”. Embora utilizem linguagens conceptuais e causas explicativas diferentes estes quatro autores têm em comum, segundo Atkinson, o facto defenderem a independência das trajectórias sociais face à posição de partida ocupada no espaço das classes sociais e de entenderem esses processos como sendo orientações livre e reflexivamente ponderadas.

Após identificar os principais pressupostos e conclusões das teorias da reflexividade, o autor descreve os principais conceitos e eixos teóricos do pensamento de Pierre Bourdieu. Atkinson opõe estes dois modelos analíticos, e procura ao longo da obra demonstrar que a evidência empírica resultante da sua investigação tende a validar os argumentos e pressupostos do pensamento de Bourdieu e a infirmar a pertinência das propostas e conclusões das teorias da reflexividade – as quais tem pouco sustentação empírica, de acordo com o autor. Neste sentido, procura explicitar a arquitectura sociológica do olhar bourdieusiano. Mas ao fazê-lo, enuncia também algumas limitações desse mesmo pensamento por meio de “interlúdios críticos”, os quais consistem, em grande medida, numa tentativa de robustecer o pensamento de Bourdieu com alguns dos contributos da fenomenologia. Por exemplo, à inconsciência da acção produzida pelo habitus incorporado, Atkinson contrapõe a diferenciação promovida por Schutz entre a conduta espontânea e acção projectada e introduz o conceito de “campo subjectivo de possibilidades”, o qual entende a acção e as atitudes como operações que podem decorrer de processos de escolha e reflexão conscientes – embora estruturados e fundados nos esquemas de avaliação e conhecimento do habitus (p. 54).

Na segunda parte do livro introduz-se a informação empírica recolhida nas entrevistas e exploram-se quatro dimensões de análise consideradas pelo autor decisivas para se avaliar a pertinência argumentativa das teorias da reflexividade. Analisa-se, em primeiro lugar, até que ponto o trajecto educativo resulta de escolhas e de projectos individuais, ou se, pelo contrário, nesse mesmo percurso são reproduzidas as desigualdades classe. Atkinson refere que os trajectos por ele analisados confirmam as tendências estatísticas relativas às desigualdades no acesso ao ensino superior e à importância do capital cultural e económico das famílias de origem na definição da extensão e roteiro do percurso formativo. Refere também que identificou entre os seus entrevistados “trajectórias educativas divergentes”, caracterizadas pelo sucesso (estruturalmente imprevisto) de indivíduos provenientes de famílias com poucos recursos culturais e educativos. Nestes casos, o autor defende que as estratégias parentais têm um poder explicativo considerável e decorrem elas mesmas de posições, disposições e trajectórias familiares ligeiramente diferentes das observadas na generalidade das famílias “dominadas” (p. 99).

São analisadas em segundo lugar as trajectórias profissionais dos entrevistados. Quer os entrevistados pertencentes às classes "dominantes" (os que têm mais capital económico e/ou cultural), quer os pertencentes às classes "dominadas" (os pior posicionados no espaço dos recursos) narram as suas trajectórias profissionais aderindo a uma lógica de reflexividade, isto é, descrevendo-a como sendo marcada por decisões, projectos, escolhas. De acordo com o autor, este “nível superficial” (p. 114) das narrativas pessoais descreve como escolhas eventos do percurso profissional largamente determinados pelo capital objectivo, mas sobretudo pelo capital incorporado – os quais se assumem como condições de possibilidade ou de pertinência do pensamento e da reflexão. Trata-se, portanto, de uma “falsa reflexividade” (p. 109).

A terceira dimensão analisada prende-se com a questão dos estilos de vida e nela se procura apurar até que ponto as práticas culturais e os gostos dos indivíduos se autonomizaram face à sua posição no espaço dos recursos, num mundo globalizado e voltado para o consumo. Embora refira que o campo das práticas e gostos dos dias de hoje se alterou face ao tempo em que Pierre Bourdieu escreveu a obra La Distinction, mantêm-se as oposições e as diferenciações simbólicas entre classes sociais (por exemplo, a estetização das tarefas domésticas versus domínio prático dessas mesmas tarefas; gosto pela alta cultura e pelo abstracto versus falta de interesse e gosto pelo realismo…) e a pertinência do entendimento relacional das formas de distinção e oposição simbólica. Neste plano, o discurso crítico dirige-se não só às teorias da reflexividade, mas também a alguns dos argumentos e conclusões da obra Culture, Class, Distinction.

Por último, é discutida a importância da classe social enquanto categoria discursiva e variável estruturante das representações políticas. Atkinson começa por apresentar a classe social como sendo um importante “veículo discursivo” na categorização de comportamentos, práticas e políticas governativas (p. 161) e como um referencial de identificação, diferenciação e posicionamento social. A classe continua também, segundo Atkinson, a ser determinante para a definição das propensões políticas dos indivíduos, no sentido em que a sua posição e trajectória no espaço social contribui para moldar as percepções e filiações políticas e/ou os interesses materiais dos indivíduos. A grande mudança identificada pelo autor tem a ver com a perda de importância da classe social enquanto entidade política mobilizadora da acção e da consciência colectiva, no fundo, da luta de classes baseada na percepção das desigualdades e injustiças sociais.

Neste livro Will Atkinson testa a validade sociológica das teorias da reflexividade, mas também o esquema de pensamento de Pierre Bourdieu, a partir do confronto das premissas teóricas e ferramentas conceptuais destas duas perspectivas analíticas com a realidade empírica. A principal conclusão do estudo é a de que a classe social, tal como ela é definida pelo autor francês, mantém a sua actualidade hermenêutica e o seu poder explicativo. Os recursos e as posições ocupadas no espaço social são determinantes na definição dos processos de distinção e desigualdade entre os indivíduos, pois assumem-se como constrangimentos objectivos e disposicionais aos seus processos de escolha, às suas atitudes e representações. Embora admita a consciência e a reflexão individual, defende que elas existem e produzem-se a partir de um conjunto de possibilidades objectivas de pensamento e acção, constituindo-se, neste sentido, como “campos subjectivos de possibilidades”.

Frederico Cantante

Ver artigo de Will Atkinson "Same Formula, Different Figures: change and persistence in class inequalities", publicado na revista Sociologia, Problemas e Práticas (2010, nº 63)

Ver vídeo da palestra dada pelo autor no ISCTE-IUL no final de 2009.


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